terça-feira, 16 de julho de 2024

 TRECHOS DE:

ESTRUTURA ARQUETÍPICA

Teoria Geral

A Formação das redes de interação e Desenvolvimento Humano, segundo a Natureza e sua representação no conjunto dos Arquétipos

 

Mauro Andriole

                                                                                2024

  1. Trecho Inicial:

    • “O enigma do que afinal seria a primeira causa das coisas requer igualmente uma contextualização primordial: qual é a Condição Humana? Deste ponto em diante, é na totalidade, e não nas subdivisões, que podemos imaginar, por hora, que um nexo subjacente persista em todas as formas possíveis ao Humano, supondo ser a origem donde Ser Humano no mundo é um modo de exprimir-se e formar uma identidade, intrínseca à origem e causa disto, a despeito de estar ou não ciente deste processo e qual seja sua natureza e fim em curso.”
    • “Para Merleau-Ponty (1994), por sua vez, não apreendemos os objetos, experiências ou o que seja como um conjunto de características fornecidas pelo próprio objeto, mas investimos com nossa intencionalidade aquilo que nos é solicitado ou sugerido pela experiência. Assim, o ‘eu posso’ apresentado pelo filósofo, em substituição ao ‘eu penso’ de Descartes, é também a habilidade que o corpo tem de completar gestalts, de colocar-se em situação, conforme sugere Dreyfus (1996). O constante diálogo corporal com o mundo não necessariamente corresponde a planos previamente elaborados, ou ainda, o corpo vivido possui um saber que não precisa de representação para se manifestar.”
  2. Trecho sobre a Investigação do Inconsciente:

    • “As considerações sobre os conhecimentos neste universo do inconsciente Humano, grosso modo, costumam afirmar valores e métodos que surgem nas experiências de Freud e Jung, o que de imediato inclui a experiência de ambos com culturas ancestrais, mitologias, e uma multiplicidade de vivências subjetivas que fazem parte da vida intensa destes pesquisadores. Ora, torna-se ingênua a adoção de uma continuidade a partir de Freud e Jung, por eles mesmos serem continuidades, reescrevendo noutra linguagem e prática, o que já era um colossal monumento de conhecimentos compartilhados por sábios, sacerdotes, xamãs e magos, figuras estas consolidadas há muitos milênios em todas as culturas ancestrais.”
  3. Trecho sobre a Totalidade Humana e o Enigma do Inconsciente:

    • “Causas podem ser circunscritas em níveis diferentes. Por exemplo, átomos e elétrons podem ser considerados causas primeiras, formando moléculas. Essas moléculas, por sua vez, interagem e formam outras estruturas, substâncias e assim por diante, até chegarmos a tecidos, órgãos, organismos e assim sucessivamente. Do micro ao macro, podemos inferir essa forma de analisar a causa de algo. Dessa maneira, segue o processo de interpretação e localização para definir o que seria uma primeira causa emergindo em efeitos que se projetam em múltiplas variações e diferentes magnitudes.”
    • “A percepção é, por isso, uma causa primeira, e a Natureza é a totalidade indutora de um tipo específico de criação lógica: a causalidade. Isso está na base de toda a construção civilizacional. A aplicação da lógica da causalidade à análise da vida humana torna-se muito complexa, e não há uma teoria geral que defina a questão de forma definitiva. Por isso, adotamos que a multiplicidade de efeitos que surgem durante o contato com o mundo é de uma grandeza infinita. Assim, toda tentativa de analisar fenômenos da vida humana acaba gerando recortes necessários e igualmente arbitrários.”

 “A Totalidade Humana e o Enigma do Inconsciente: Reflexões a partir de Freud, Jung e Conhecimentos Ancestrais”

ESTRUTURA ARQUETÍPICA

Teoria Geral

A Formação das redes de interação e Desenvolvimento Humano, segundo a Natureza e sua representação no conjunto dos Arquétipos

 

Mauro Andriole

                                                                                2024


O enigma da primeira causa das coisas exige uma contextualização primordial: qual é a Condição Humana? A partir desse ponto, podemos imaginar que um nexo subjacente persiste em todas as formas possíveis do humano. Ser humano no mundo é uma expressão intrínseca à origem e causa, independentemente de estarmos cientes desse processo e de sua natureza e propósito em curso.

Merleau-Ponty (1994) propõe que não apreendemos objetos ou experiências como um conjunto de características fornecidas pelo próprio objeto, mas investimos nossa intencionalidade naquilo que nos é sugerido pela experiência. O “eu posso” substitui o “eu penso” de Descartes, representando a habilidade do corpo de completar gestalts e se colocar em situação. Esse diálogo constante com o mundo não segue planos preestabelecidos; o corpo vivido possui um saber que se manifesta sem necessidade de representação.

No entanto, a investigação do inconsciente enfrenta desafios. As considerações sobre o conhecimento nesse universo costumam derivar das experiências de Freud e Jung, incluindo suas interações com culturas ancestrais e mitologias. A continuidade a partir desses filósofos é ingênua, pois eles reescreveram conhecimentos compartilhados por sábios, sacerdotes, xamãs e magos há milênios. O imaginário inconsciente, povoado por arquétipos desde o alvorecer da mente humana, influencia noções, métodos e critérios nas atividades científicas, artísticas e filosóficas.


Compartimentação e Contrapartida do Inconsciente: Este processo de priorizar subdivisões, isolando partes de uma totalidade para aprofundar investigações, é útil em áreas específicas das ciências, mas não quando aplicado à investigação da condição humana. A compartimentação gera uma projeção de uma imagem individualizada falsa, envolta em uma ilusão coletiva. Essa contrapartida do inconsciente coletivo revela efeitos colaterais. A ausência de recursos para lidar com os arquétipos que continuam estruturando pulsões enraizadas está na base da falta de conexão no mundo.

 

ESTRUTURA ARQUETÍPICA

Teoria Geral

A Formação das redes de interação e Desenvolvimento Humano, segundo a Natureza e sua representação no conjunto dos Arquétipos

CONTEXTUALIZAÇÃO

2024

            Contexto refere a presença de uma condição relacional que um conjunto de fatores manifesta. No contexto se exprime a forma total, sempre circunstancial, que configura a interação, que então, dada uma constante identificada, encerra um sentido complexo, e, por isso, sempre mais abrangente que o sentido restrito, igualmente presente, singular, isolado nas partes.

Se é assim, então, também, o nexo do contexto é abrangente, pois a conexão entre os elementos constitutivos do contexto é ampla. Assim, mais determinante é a causa de sua coesão, coerência, e abrangência, mas, também maior é a dificuldade de sua compreensão: por sua complexidade, por suas relações nem sempre parecerem lógicas, e, por fim, porque o sentido subjacente dos processos poder ocorrer num modo muito distante da noção de causalidade, e surgir inesperadamente, da probabilidade associativa do potencial presente na multiplicidade dos fatores ativos em interação.

Relações entre pessoas, suas histórias de vida exibem exatamente essa condição.

Sendo sempre circunstancial, o nexo total de uma relação pode tornar-se incognoscível, parecendo que seu sentido depende apenas do limiar dos efeitos que observamos imediatamente. Assim, dizemos que X gosta de Y por alguma razão, e isto levou a que se unissem, e dessa união nasceu Z e W. Qual é o sentido subjacente que causa esse contexto desde seu início até o momento final?

Assim, a manifestação visível da causa original, ativa nas potencialidades, que em X era a atração pela beleza de Y, pode não corresponder ao final do contexto da mesma forma que surgiu primeiramente no instante percebido por X.

A aparência de Y no limiar da interação, na superfície da interação, depende de como uma potência X se efetiva durante a interação com Y, a despeito de Z e W serem probabilidades dadas na associação entre as partes em transformação, X e Y.

Analogamente, assim como a forma e natureza de uma árvore estão supostamente presentes na potência de uma semente (X), a causa plena que efetiva a árvore é uma circunstância relacional ( ...A + B + C ... N + O... + X + Y + Z...) que está no contexto em curso, que inscreve o desenvolvimento de X no porvir de um sistema complexo.

Os fatores potenciais que cooperam para isso (a herança Humana: transgeracionalidade) incluem toda a paisagem, estão ativos na fauna, flora, estações e, por fim, no ecossistema, na Humanidade em devir. Segundo essa noção, a justificativa original, a causa ativa na grandeza contextual referirá logicamente à necessidade do ecossistema. Se considerarmos que essa não é uma necessidade do sistema, correspondendo a primeira causa desta totalidade, o que é inato e inerente, um substrato presente em níveis distintos, na semente, árvore e paisagem. Para negar a noção de necessidade como causa da existência, temos que aceitar que o surgimento e comportamento das coisas, das partes, durante sua manifestação num sistema, pode simplesmente não ter uma causa de origem, existir do nada, e por isso, ser absolutamente independente e existente por si mesmo, sem conexão, sentido ou lógica na totalidade do contexto onde surgiram.

O nexo da totalidade, se existe, portanto, mesmo tendendo ao incognoscível, revela que há a necessidade da ação subjacente, que pode ser puro movimento. Podemos dizer que pessoa X surge num determinado momento, formado pelas interações sucessivas, numa rede complexa de necessidades de A, B, C... e assim por diante, até culminar no recorte descrito do exemplo: X + Y > Z e W. E assim sucessivamente num processo que se mantém relativo às qualidades e tendências de X e Y, transferidas em algum grau e nível para Z e W, que perpetuam vínculos causais originados num remoto passado , desde A e B.

Essa ação é causal, se aceita como necessária e sendo um movimento inerentemente presente na forma inata ou potencial em múltiplos fatores existenciais, só revela um sentido dependente de circunstâncias no momento inaugural, na interação entre A e B, donde supostamente surgem C..., dos quais se manifestam, por fim, todos os demais fatores como os efeitos, criando as aparências e um sentido contingente no recorte de um contexto cuja origem prevalece como mistério, pois não sabemos como afirmar sobre A e B em sua plenitude, apenas sobre níveis de sua existência, principalmente acerca de sua origem material. A teoria evolucionista discorre sobre isto, e diversas cosmogonias e mitos da criação narram a respeito.

A primeira causa de um contexto, nessa perspectiva que discutimos acima, de necessidade e causalidade, sustenta justificativas em relação a etapas diferentes do desenvolvimento de X e Y. Pensamos numa teoria da Causalidade como justificativa da realidade existencial, no entanto, a própria compreensão da condição na qual a elaboração teórica sempre foi muito complexa, pois a Natureza Humana é multifatorial, entrelaçada em distintos níveis, mas, a despeito desta complexidade, é donde naturalmente tendemos a consagrar a necessidade de haver um Princípio.

“A Ciência conseguiu, numa imbricada relação com aquilo que se chamou de Modernidade (e que se confunde com ela própria) dar respostas e solucionar uma série de problemas a ela apresentados, fazendo com que tais explicações/soluções "funcionassem" no cotidiano da vida social. A Ciência, baseada na lógica clássica, aristotélica, além do seu enfoque causal, aderiu centralmente a uma epistemologia específica, para a qual existe um mundo objetivo (e objetivado) fora (e independente) do ente que o observa, e que se mostra de forma única (e verdadeira) a todos observadores1. Isso lhe permitiu estabelecer "certezas" e "verdades" quase-únicas (ou consensuais) acerca do mundo.”[1]

A necessidade do Princípio, no qual justificamos a realidade existente, e a presença de uma coisa, sustenta-se em diferentes níveis da condição Humana, portanto, a primeira causa dessa necessidade, por inferência, é a condição Humana; da qual, segundo a lógica da causalidade, desencadearia tudo o mais, sendo esta a forma natural de gerar narrativas, que seria o modo abrangente, que abarcaria a interação total (o contexto). O contexto narrado nada mais é do que a manifestação necessária do conjunto causal ou entrelaçamento de todas as coisas que existem, e isso é percebido por natureza, ou seja, a despeito de sabermos como essa narrativa surge, por ser inerente à nossa forma de perceber, e, portanto: uma necessidade primordial.

A ideia de que nada simplesmente “vem a ser” sem um processo interativo é coerente com a visão científica, as coisas existentes surgem vinculadas a sistemas complexos. Tudo o que observamos, portanto, é resultado de interações complexas entre componentes. A Física quântica introduziu nuances interessantes quanto à validade de nossa percepção, suas descobertas desafiam nossa intuição clássica sobre causalidade, surge a ideia de probabilidade existencial e não localidade na mecânica quântica, que sugere que eventos podem ocorrer sem uma causa determinística clara. No entanto, isso não é o mesmo que afirmar que algo surge isoladamente do nada e a nada se vincula ou existe sem interagir, mesmo na escala quântica, mostrando que ainda há relações e interdependências entre partículas, mesmo que sejam probabilísticas.

Ao observarmos as relações entre as pessoas, supondo a hipótese acima, observaríamos que na sucessão de causa relativas, desde o surgimento de X e Y, geradores de Z e W, que, por sua vez, seguem gerando potencialmente toda a série de descendentes, herdeiros desse contexto, estamos observando concomitantemente uma etapa necessária, uma singularidade do desenvolvimento Humano. Que, por necessidade inicial, do movimento, encerra o substrato natural, a Natureza Humana em devir. Assim, no contexto de X, Y, Z e W, no nível de sua pulsão universal Humana, está a causa parcial, que ressoa, e é formadora da história singular deste grupo, mas, irredutivelmente conectada, inerentemente condicionada ao que é necessário à Humanidade, simplesmente, por ter sido originado num determinado momento dela, e por isso, sem poder ser ou agir independentemente do que já é um sentido total presente no processo e condição Humana. Os Antigos sábios chamam a este sentido universal de Destino Humano.

A complexidade dessa investigação, quanto a origem da condição Humana, naturalmente precisou ser reduzida, subdividida, e por fim desencadeou diferentes traduções na tentativa de representar nossas experiências no mundo tal qual o conhecemos. Assim, a despeito de quais fossem as linguagens e abordagens, o fato é que ao longo do tempo foram compondo um contexto e sentidos intrínsecos agregados por funções, categorias, compondo argumentos válidos em algum nível numa vasta coleção de informações, mas que respectivamente, ainda correspondem a relações e interações sempre conectadas a causas dos efeitos percebidos. Estes fenômenos relacionais formam um conjunto de possibilidades Humanas, observados segundo a lógica da causalidade em pelo menos quatro modos: material, emocional, mental e transcendente, que discutiremos a seguir.

Antes disso, consideramos que adoção da lógica da causalidade em sua primeira formulação surge da percepção direta, que simplesmente coopera na assunção de valores positivos, vitais à sobrevivência no nível material: instintiva.

CIÊNCIA

“...a Ciência conduziu à crença de que o conhecimento científico (como teoria e modelos) tinha correspondência com a realidade observada; de que o todo observado constitui-se na totalidade das observações possíveis; e de que a totalidade da "realidade externa" só opera no nível da observação humana, tornando-se o humano a medida de toda a realidade do mundo que, cartesianamente, é externa e ele.”[2]

Essa redução da realidade Humana ao que é computável, concreto, um dado objetivo do mundo por si só, enfim, desencadeia uma contrapartida inevitável, isto, quando surge o desafio de compreender grandezas absolutas: como dar conta do infinito e do eterno real na psique, que é outro espaço-tempo real? Surgem experiências e narrativas paradoxais, mas, cujas grandezas, efetivamente se mostram necessárias ao desenvolvimento Humano, e por isso nos instigam a imaginar para além do raciocínio linear, e especular, afinal, o que é o real neste modelo do espaço-tempo, quais são suas características, natureza, fins e causa? [3]

A inevitabilidade da questão acima (saber: a origem das coisas) demonstra, por sua vez, que afinal há uma Natureza para a qual toda a força de vontade e poder ser se dirige, enquanto a mente segue adentrando relações entre o interno refletido e o espaço-tempo externo. O processo de formação natural do Ser Humano perdura buscando em si, e no universo, suas leis, simultaneamente ampliando as correlações possíveis entre suas partes. O desenvolvimento Humano, portanto, ocorre concomitantemente ao do universo, porque somos, afinal, as manifestações circunstanciais co-criadoras da narrativa deste contexto, ora limitado, ora ilimitado. Existimos, por isso, interagindo invariavelmente na dualidade de escolhas existenciais, mas permanecemos irredutivelmente circunscritos a um modo singular do complexo espaço-tempo Humano.

Ao nos dirigirmos novamente para o que poderia ser a primeira causa de nosso contexto Humano, limitando a investigação às experiências e valores já conhecidos, distinguimos pelo menos quatro causas compondo uma totalidade experiencial: material, emocional, mental e transcendente.

À causa material se impõe o efeito do organismo, um corpo em desenvolvimento contínuo desde seu surgimento, entendido na maior parte na dependência da abordagem e critérios afins com as noções referidas a esta dimensão Humana. A Arqueologia, Antropologia e diversos ramos da Biologia e Medicina tratam destes aspectos de forma geral. Deles surgem respectivas teorias, metodologia e confirmações sucessivas quanto ao real e verdadeiro, ampliando a compreensão da causa material extraordinariamente. O colossal conjunto de conhecimentos neste nível existencial, portanto, deriva da condição material.[4]

Ao avaliarmos a causa emocional se ergue um volumoso complexo de fatores, interações e relações que dependem da causa material, e se mesclam a ela, do que definimos ser o organismo Humano, de seus receptores inatos, e dos diferentes estímulos que registram, a causa de reações instintivas e subjetivas que chamamos por emoções. As relações que derivam das emoções podem referir as duas ordens: objetiva, a saber, as que surgem dependentes da integridade física, das trocas bioquímicas, reguladoras da capacidade dos sentidos físicos para seu pleno funcionamento; e, as que consideraremos por subjetivas: as que se elevam a sentimentos, resultantes já de uma elaboração, por isso, mescladas com a ação do pensamento, porque se manifestam urdidas ao fundamento da causa mental.  Outras especialidades surgem para dar conta deste tipo de relação presente nas experiências Humanas. A Psiquiatria e Neurociências em conjunto com diversos ramos da Psicologia se ocupam deste campo.

Quando adentramos a investigação do que definimos por causa mental o desafio se agiganta, e colapsamos no mistério, porque é preciso enfrentar uma grandeza indeterminada, criada com a noção de inconsciente. Esta dimensão Humana, já consagrada como realidade subjacente ao que se define por consciência, é de fato enigmática, sobretudo às abordagens que pretendem manter critérios assentes na percepção do mundo exterior. O efeito colateral é que o enigma se projeta sobre a consciência, reduzida ao que seria meramente instrumental, ao lógico, regido pela causalidade.

Muito mais evanescente é a investigação que concerne à causa transcendente, imiscuída à religião, e à região que, na causa mental, seria o inconsciente. Sendo simbólica, alegórica e alusiva, é esta a forma de justificar experiências no campo da intuição, premonição, os sonhos e a imaginação de forma geral:  "uma intuição a qual não pode ser, estritamente falando, autoconsciente e a qual pode compreender a si própria apenas através de modos de experiência" (Marcel, 2007, p.118).[5]

As especulações quanto à causa transcendente reduzem os argumentos à um mistério, e ou a necessidade de segurança emocional (talvez), expressa na criação da vasta cosmogonia de todos os povos, mantida em sua narrativa original ou não, mas, sucedida por reestruturações, sempre correspondentes a demandas circunstanciais das diferentes culturas.

 O enigma do que afinal seria a primeira causa das coisas requer igualmente uma contextualização primordial: qual é a Condição Humana?

Deste ponto em diante, é na totalidade, e não nas subdivisões, que podemos imaginar, por hora, que um nexo subjacente persista em todas as formas possíveis ao Humano, supondo ser a origem donde Ser Humano no mundo é um modo de exprimir-se e formar uma identidade, intrínseca à origem e causa disto, a despeito de estar ou não ciente deste  processo e qual seja sua natureza e fim em curso.

Para Merleau-Ponty (1994), por sua vez, não apreendemos os objetos, experiências ou o que seja como um conjunto de características fornecidas pelo próprio objeto, mas investimos com nossa intencionalidade aquilo que nos é solicitado ou sugerido pela experiência. Assim, o "eu posso" apresentado pelo filósofo, em substituição ao "eu penso" de Descartes, é também a habilidade que o corpo tem de completar gestalts, de colocar-se em situação, conforme sugere Dreyfus (1996). O constante diálogo corporal com o mundo não necessariamente corresponde a planos previamente elaborados, ou ainda, o corpo vivido possui um saber que não precisa de representação para se manifestar.”[6]  

Isto nos impõe o desafio da investigação do inconsciente ser realizável ou não.

As considerações sobre os conhecimentos neste universo do inconsciente Humano, grosso modo, costumam afirmar valores e métodos que surgem nas experiências de Freud e Jung, o que de imediato inclui a experiência de ambos com culturas ancestrais, mitologias, e uma multiplicidade de vivências subjetivas que fazem parte da vida intensa destes pesquisadores. Ora, torna-se ingênua a adoção de uma continuidade a partir de Freud e Jung, por eles mesmos serem continuidades, reescrevendo noutra linguagem e prática, o que já era um colossal monumento de conhecimentos compartilhados por sábios, sacerdotes, xamãs e magos, figuras estas consolidadas há muitos milênios em todas as culturas ancestrais. Enfim, se tomarmos as próprias conjecturas Junguiana, somos levados a partir da ação de um imaginário – inconsciente – povoado por estes arquétipos desde o alvorecer da mente Humana. Este imaginário se desdobra na profusão de noções, métodos, critérios, enfim, tudo o que impulsiona as atividades laboratoriais, científicas, artísticas e filosóficas. Figuras emblemáticas, promovendo a incursão pelo enigma Humano, presentes na mediação, formulação de trocas simbólicas e materiais, justamente, regulando a interação de causas que hoje identificamos e tratamos de forma isolada, mas que, postas na totalidade Humana, nunca o foram.[7]      

 Este processo que prioriza as subdivisões, isola as partes de uma totalidade, para aprofundar investigações é uma operação necessária e útil em áreas específicas das ciências, porém, não o é se aplicada na investigação da condição Humana. A compartimentação segue gerando uma projeção da imagem individualizada falsa, envolvida numa ilusão coletiva, que inerentemente movimenta o inconsciente da imensa maioria das pessoas a uma contrapartida.

É a partir dessa contrapartida do inconsciente coletivo que podemos observar os efeitos colaterais.  A ausência de recursos para lidar com os arquétipos que continuam estruturando pulsões enraizadas está na base da ausência de nexo no mundo.

Esta presença intuitiva, individual, que Jung refere por Eu: “Mas o que é o eu? ... é um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória...o eu é uma espécie de complexo, o mais próximo e valorizado que conhecemos. É sempre o centro de nossas atenções e de nossos desejos, sendo o cerne indispensável da consciência.” (1935) [8]

O Eu surge como uma noção necessária, autorreferente, dada pela inquestionável presença inerente do corpo sensível e consciente de si mesmo como centro das sensações, porém, sua magnitude está para muito além dessa certeza, sua natureza assim, embora não se questione se há uma certeza sobre o que seja o Eu, esta certeza desaparece numa contingência que a própria abrangência da consciência experimenta existindo em níveis estranhos às sensações corpóreas. E mais do que isso: não vivemos eternamente... Será? Como responder a isso, se sequer compreendemos com clareza o que seja afinal o Eu, a dimensão da consciência... Enfim, é preciso investigar mais, ampliar critérios para além de subdivisões, para evitar tomar por fundamento o que certo e lógico apenas num nível de nossa existência, de sorte que, por mais provocativa e especulativa que seja a questão, é necessário enfrentar esse desafio, porque tendemos a agir como se houvesse chance de existir independentemente da totalidade da Humanidade.  

Deste quadro de incertezas, seja no nível que discutem os Filósofos, sobre os efeitos da cultura de massa, seja no inverso disto, na Psicologia e Psiquiatria, quanto a hiper valoração da individualidade típica à sociedade narcísica, o que inevitavelmente nos confronta são as reações distorcidas dos mesmos arquétipos, desestruturados, estimulando fantasmagorias em todas as formas de patológicas prevista por Jung, porque, o que desconsideramos é justamente o que nos constitui, que é uma condição natural, na qual, o ser e estar humanamente existindo emerge de um modo típico de agir absolutamente entrelaçado e, simultaneamente, subdividido numa imensa rede de relações, efetivas, reais, na multiplicidade dos efeitos, formando o contexto deste tempo.

O sentido parcial, que vibra nas partes isoladas, ressurge na individualidade, ressoando e manifestando um modo e trecho que varia do sentido da totalidade enquanto participa deste contexto. Assim, todos os Humanos, de algum modo e em diferentes níveis, observamos naturalmente as ressonâncias ou reminiscências ou vestígios da Humanidade recriando seu contexto original numa grandeza menor, na variação de intensidades espelhada na singularidade de cada pessoa.

Podemos inferir se tratar da reciprocidade entre macro e microcosmo. Observamos uma notável reciprocidade entre o macrocosmo e o microcosmo, uma conexão que remonta à Antiguidade. Ao contemplar diversas formas de organização e desenvolvimento no planeta, percebemos padrões semelhantes emergindo em cristais, vegetais, animais e até mesmo em estruturas moleculares e galáxias. Essa constância sugere a existência de uma causa subjacente que transcende os níveis de organização, interligando órgãos, raízes e moléculas.  Em síntese, a constância observada na reciprocidade entre macrocosmo e microcosmo sugere a existência de uma força ativa criativa total. Essa força, embora grandiosa demais para ser plenamente compreendida por nossos critérios conscientes, transcende os níveis de organização, interligando órgãos, raízes, moléculas e galáxias. Assim, ao contemplarmos as estruturas naturais que nos cercam, podemos vislumbrar uma causa subjacente que perdura e se reproduz em diferentes contextos.



[1] A contribuição da Sociologia à compreensão de uma epistemologia complexa da Ciência contemporânea - Peixoto Rodrigues, Léo; Monteiro Neves, Fabrício e dos Anjos, José Carlos, em Dossiê • Sociologias 18 (41) • Jan-Apr 2016 • https://doi.org/10.1590/15174522-018004102 

[2] Idem

[3] Poder-se-ia objetar e citar que há sociedades que não manifestam tais questionamentos, sobretudo na Antiguidade, no entanto, todas possuem suas cosmogonias, que funcionam justamente na integração com imagens do que seria o momento inaugural do mundo (espaço-tempo).

[4]A causa do conhecimento sensível é a coisa externa, assim a sensação e a percepção são efeitos passivos de uma atividade dos corpos exteriores sobre o corpo da pessoa. O conhecimento é obtido pela soma e associação das sensações na percepção e tal soma e associação depende da frequência, da repetição e da sucessão dos estímulos externos e de nossos hábitos (Luijpen, 1973).” Andréa O. Oliveira; Carlos Alberto Mourão-Júnior, em: Estudo teórico sobre percepção na filosofia e nas neurociências. Neuropsicologia Latinoamericana vol.5 no.2 Calle  2013

 

[5] MARCEL, G. Being and having London: Read Books, 2007.

[6] Zimmermann, Ana Cristina; Torriani-Pasin, Camila em Filosofia e neurociência: entre certezas e dúvidas, Ensaio • Rev. bras. educ. fís. esporte 25 (4) • Dez 2011 • https://doi.org/10.1590/S1807-55092011000400016 

 

[7]A complexidade da pesquisa mostra-se a cada movimento da Ciência em busca do desconhecido e do dificilmente mensurável sob diversas óticas. Na Educação Física, por exemplo, quando tentamos pensar o movimento humano, esse corpo vivo em relação com o mundo, por meio de conceitos restritos a uma única área, constata-se a complexidade deste fenômeno por meio do aparecimento de lacunas, espaços em que o imponderável se apresenta. A elaboração de premissas explicativas para o movimento torna-se constantemente expandida para os mais diversos níveis de análise: celular, neural, mecânico, comportamental, psicológico, social, histórico, e ainda assim, sempre novas questões apresentam-se. Tal qual um jogo, movimento é também provocação, privilégio de um fenômeno que é também convite ao que está por vir.” – Zimmermann, Ana Cristina; Torriani-Pasin, Camila em Filosofia e neurociência: entre certezas e dúvidas, Ensaio • Rev. bras. educ. fís. esporte 25 (4) • Dez 2011 • https://doi.org/10.1590/S1807-55092011000400016 

[8] Fundamentos da Psicologia Analítica – em A VIDA SIMBÓLICA – Jung, C.G. – Ed. Vozes, 1997, SP

sábado, 13 de março de 2021

 

A ESTRUTURA ARQUETÍPICA

Mahauros Andriole

A PERSONALIDADE E SUA JORNADA PELA CONSTELAÇÃO TERRESTRE

Estudos de caso e reflexões sobre os fenômenos Arquetípicos, estabelecidos como energias Causais da Existência, ativos na formação e expressão da personalidade, manifestando-se nos eventos da vida do homem, criando as redes de relações interpessoais: as constelações terrestres.



“Se a Mente não saísse ou afluísse de si, não teria pensamentos; mas se não tivesse pensamentos, não teria conhecimento de si, nem de nenhuma outra coisa e seria incapaz de criar e de agir. Todavia, o afluxo dos pensamentos da Mente – que é um contrarium da Mente, por meio do qual esta descobre a si mesma – faz com que ela queira e deseje algo, de modo que dirige os pensamentos a algo, isto é, ao centrum de uma egoidade, no qual a Mente opera com os pensamentos, revelando-se e contemplando-se em ação através deles.”                                                                                                     

Jacob Böehme

“O Si-Mesmo não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o Eu é o centro da consciência. ”

C.G.Jung

“O mundo e o eu, a luz e o fogo distinguem-se nitidamente e, apesar disso, nunca se tornam definitivamente alheios um ao outro, porque o fogo é a alma de toda a luz e todo fogo se veste de luz. Assim, não há um único ato da alma que não adquira plena significação e não venha a finalizar nesta dualidade: perfeito no seu sentido e perfeito para os sentidos”            

George Lukács

“Antes que a união com o infinito possa ser considerada, é preciso que todo princípio da constituição humana seja unido, de modo que o homem se torne uma consciência unida e não uma série desconexa de consciências separadas e distintas. A inteligência das células físicas que formam o corpo, o princípio das emoções e sentimentos, a esfera da mente propriamente dita, precisam estar unidos e ligados por uma percepção consciente da verdadeira natureza do eu que os emprega, o Gênio superior.                

Israel Regardie


APRESENTAÇÃO

         A obra que o leitor tem em mãos concentra-se numa apresentação geral do que chamaremos por Estrutura Arquetípica, por isso, o objetivo central aqui é apenas promover a reflexão inicial acerca desta dimensão da natureza Humana, a Arquetípica, assim como descrita de diferentes formas pelas tradições ancestrais do Oriente e Ocidente. Tal como observaremos, esta dimensão é absolutamente real e ativa em todos os setores da vida, embora possa ser ignorada completamente ou mal compreendida durante a vida inteira.

Nesta obra, portanto, por necessidade intrínseca deste enraizamento nas tradições milenares, faremos uma exposição sucinta dos fundamentos básicos da chamada Filosofia Perene, da qual a Estrutura Arquetípica é um resultado, de forma que o leitor possa observar como eles justificam e se articulam no processo analítico que foi aplicado em consultas. O leitor encontrará diversas considerações importantes que surgiram durante a investigação, todas derivadas diretamente da prática efetiva deste método analítico ao longo dos últimos dez anos.

Foram realizadas aproximadamente mil consultas com pessoas das mais diversas formações, homens e mulheres e crianças de idades, nacionalidades e crenças diversas, perfazendo um total de cinco a seis mil personalidades associadas entre si pelas constelações familiares – personalidade central, seus pais, irmãos e companheiros ou cônjuges, além de casos de análises de equipes de trabalho, que discutiremos num capítulo dedicado a interações profissionais. Assim, o que observamos abarca o que foi registrado no período de 2011 até 2021.

Os fenômenos da formação de redes de relacionamento que se estabelecem naturalmente, por vínculos afetivos e de consanguinidade, que chamaremos simplesmente de Constelações, é fulcral para entender todo o processo do vir a ser da personalidade em seu desenvolvimento, demonstrando que estamos literalmente enlaçados numa imensurável rede de interdependência absolutamente inteligente, misteriosamente organizada, cujo objetivo exclusivo e irredutível é promover a elevação da Consciência Humana a um nível claramente superior de convívio e integração no ambiente terrestre. Este objetivo é constitutivo e estabelece uma condição da qual o homem jamais pode se distanciar, mesmo porque, como observado, a sobrevivência neste mundo depende desta conquista. Inúmeras teorias apontam para o mesmo fim, o que estamos trazendo neste estudo é mais uma evidência desse processo.

As reflexões iniciais reiteram o que já é sabido há milênios por todas as culturas do mundo, e na atualidade são vitais para a constatação e compreensão do que seja a dimensão Arquetípica como fonte de real transformação do Ser Humano em seu caminho na Terra, pois, como demonstraremos, toda a existência que consideramos realidade emana dela.

Os estudos aqui presentes, embora possam parecer mais uma versão do que as obras de literatura esotérica já descrevem, sobretudo as dedicadas às Astrologias e Numerologias, em verdade se distanciam destas no sentido da narrativa que verte da análise, além do que, trata-se de um método original. O que teremos, portanto, são registros efetivos de observações muito pontuais sobre relatos reais da vida comum. Deste modo, algumas observações a partir deste método podem gerar implicações interpretativas diferentes do que as Astrologias e Numerologias tradicionais costumam narrar. As diferenças de narrativa que surgiram, no entanto, não divergem do sentido essencial ou anulam a validade do discurso das Astrologias e Numerologias, mas agregam outro ponto de vista a estas, ressignificando algumas noções correntes sobre o Livre Arbítrio e o que seja o Destino. Ao final, vemos que há mais consonâncias do que discrepâncias, ainda que elas possam surgir dependendo do plano que se estabelece a questão, mesmo porque, a Estrutura Arquetípica se desenvolveu também tingida pelas narrativas destas duas abordagens tradicionais.

O fator que tende a gerar algum ruído, por assim dizer, surge justamente da natureza desta camada a partir da qual se observam os fenômenos, a Arquetípica, porque a rigor, podemos encontrar diferentes definições sobre o que seja o Arquétipo, e mais, sabe-se que nenhuma delas abarca o que seja tal coisa, pois trata-se de algo que ultrapassa largamente os recursos discursivos e se enraíza profundamente no imaginário, no sublime e inefável. Daí que a ideia de observar o Arquétipo, já é algo paradoxal, dada a imensurável volatilidade que o termo encerra. As noções correntes em psicanálise e psicologia, assim como noutras linhas de pensamento, utilizam o termo para vastas teorias, sempre justas e dando conta do que almejam, e isto porque, como dissemos, o Arquétipo talvez nem possa ser referido por palavra alguma, mas simplesmente sentido simbolicamente. A redução do que seja isto – o Arquétipo – é notadamente uma necessidade linguística, sem a qual ele simplesmente evadiria para uma abstração imensurável. No nosso caso, esta redução se baseia naquilo que, assim como o símbolo, exibe um conteúdo que parte de uma pura abstração, porém, capaz de tornar-se concreta em seu poder de síntese, qual seja: o número.

O número é a síntese plena que sem ser algo real, no sentido de sua materialidade, é absoluto, no entanto, sendo o que justifica a realidade primordial de tudo o que conhecemos, pois, todas as coisas podem ser descritas e analisadas em algum nível a partir das análises numéricas. Evidentemente, como ocorre na prática das Numerologias, o número representa muito mais que uma quantidade, ao contrário disto, ele se dilata ou dissolve, muda de tensão e assume plasticidade para abarcar tênues nuances de qualidades que excedem completamente o uso habitual das operações quantitativas. O número, tal como o poema, exibe um universo de relações suficientes para narrar a história do homem em toda a sua magnitude. Deste mesmo modo, agora observando os Astros, vemos que a mitologia celeste oferece exatamente as mesmas possibilidades, desta vez pela poética dos deuses antigos que habitavam o mundo dos homens nas culturas ancestrais. Lado a lado caminhavam, os homens e estas potências, e o planeta Terra exalava aromas já há muito esquecidos. As narrativas heroicas, as tramas, conquistas e derrotas colossais faziam parte do dia destes povos que não se distinguiam das estrelas que luziam sobre suas cabeças.

            O que podemos dizer, grosso modo, é que a Estrutura Arquetípica considera a narrativa da vida do homem a partir desta dimensão, na qual o Humano vivifica o Eu, que é posto como o continente último de tudo quanto possamos conceber, contendo todas as outras manifestações do homem/Cosmo em Si Mesmo, mas mantendo nexo com todas as singularidades de cada nível de expressão seu universo próprio. Em outras palavras, a dimensão Arquetípica, tal como desenhada no ápice do grandioso esquema da Árvore da Vida, é a fonte original na qual está plasmada a imagem do Humano, emanando de lá, destas alturas inefáveis o que essa natureza reflete noutras três camadas da existência deste Ser, que tanto mais agrega limites à esta natureza, mais se torna o que estamos habituados a chamar de “homem”. O Humano, por isso é a energia viva habitando o homem, uma ideia em sendo o ato criativo do Todo no Uno.

Ao observarmos que a existência é este eterno fluxo pelas dimensões, vemos que o Arquétipo subsiste em todas, mas se oculta nelas, embora sua natureza seja em verdade a Vida que se exprime nelas, e que assume o grau mais concreto, por assim dizer, sentido e fim, na corporeidade nascendo da nossa carne. Natural que a narrativa que surja deste ponto de vista, por mais alinhada que esteja com as tradições das Astrologias e Numerologias, venha a se deitar noutras paisagens, noutra lógica e anseios, porque surge a constatação de que a dissonância que atribuímos aos desafios da jornada, nada mais são do que camadas superadas pela Consciência criativa, ascendendo irredutivelmente por iniciações sucessivas a cada nível que ressoa na Terra, no homem. Este é o caminho e objetivo irrefutável do Eu/Alma, assim como descreveremos a partir das observações realizadas em consulta.

A Estrutura Arquetípica busca a sonhada conciliação com tais sentimentos primordiais, iniciáticos para alguns, tão presentes desde o antigo mundo e agora enamorado do contemporâneo, homens e deuses, astros e números, Self e Alma, milagres e ciência, tudo que agora se agrega e adquire vitalidade no tônus da prática analítica moderna, que apoia seu discurso na experiência empírica, o desenho desse fulgor luminoso nas consultas, enfim, trazer um lugar palpável para justificar as vicissitudes da jornada do homem neste momento tão delicado pelo qual as sociedades atuais atravessam. Com isso, é natural que a narrativa tenha que tingir-se do que é a necessidade deste agora do homem em sua saga, porque tudo o que existe é sempre necessário, como veremos a partir do que foi analisado com o método.  

De forma geral o que discutiremos serve em primeiro plano para ampliar recursos investigativos a qualquer pessoa que almeja conhecer a Si Mesma, e observar suas condições diante das demandas comuns do mundo que vivemos, sempre se analisando na perspectiva de uma manifestação da Consciência Humana no homem. A meta é trazer conteúdos essenciais à tona, capazes de revelar as causas criativas das formas e tipos de manifestação presentes nos fenômenos que experimentamos, estes que ilustram as cenas da vida – do nascimento à morte física.

Dito isso, fica claro que esta é uma obra em aberto, porque nasce de sua aplicação e se dirige à vida em seu fluxo vivo. Daí, a rigor, o seu conteúdo exprimir literalmente e necessariamente um trecho deste fluxo imerso no grande fluir das relações que agora o leitor está enlaçado, fluxo este que referimos à Mente. Deste modo, é natural, e esperado, que muito mais do que as palavras aqui escritas expliquem, há aquilo que deve surgir para além delas, imagens e irradiações puras identificadas das interações contínuas deste trecho, vinculadas diretamente ao fluxo para o qual converge a individualidade do leitor, tal como alguém que mira sua face num rio e se vê em movimento com o mundo.  Seja ele, o leitor, entendido, por isso, como conteúdo vivo nas águas desta obra também, observado e percebido como causa e efeito luminoso do mesmo universo que encerra a ambos: o Arquétipo.

Torna-se evidente que imensas dificuldades se erguem para a transmissão do que investigaremos, sobretudo discursivas, porque há o inefável que só pode ser experimentado no silêncio, em Si Mesmo, no entanto, noutro sentido teremos como guia os padrões de manifestação dos fenômenos, índices, formulações e sínteses, por assim dizer, que pretendem demonstrar que o conhecimento da natureza Humana é visível e inexorável a todos. De forma que aqui estamos apenas lançando estímulos para o desejo deste contato, como num mergulho mais profundo nesse oceano que encobre nossa riqueza. Ainda assim, podemos sugerir que muitas portas precisam ser identificadas, abertas, adentradas e suas salas requerem ser habitadas, examinadas por cada um, até que sejam vistas passagens para outras camadas da existência pessoal, até que elas sejam integradas à via pela qual verte a Vida. Isto é o que se almeja com a Estrutura Arquetípica.

A análise da Estrutura Arquetípica é a representação deste processo operacional, um chamado à atenção para esta observação, que é absolutamente ativa do Si Mesmo em nosso dia a dia, a despeito do quanto isto pareça natural e esteja presente intuitivamente em todos nós. O que vale é notar, é a causalidade a partir de aspectos triviais, mesmo que eles se mostrem estranhos. É preciso integrar a diferença ao que estamos habitados a chamar de “eu”. Daí afirmarmos que a imersão em Si Mesmo é a um só tempo tão natural quanto estranha. Por isso, mais do que um estudo acadêmico, este é o chamado para um contato consigo mesmo, que almejamos estimular, tendo em foco o ponto de apoio do método, e seu objeto central – o Arquétipo - em atividade plena investigativa. O processo deve ser rigoroso, a observação coesa, lógica, mas sem esterilizar deste contato aquele nuance que exala do aroma encantado, típico de uma energia viva, do Eu Sou. Portanto, a leitura que guia a observação, naturalmente irá, e deve expor, aspectos que permaneciam encobertos no inconsciente, mesmo que sussurrados às vezes do Si Mesmo como reminiscências. A vida sussurrada do Eu soa naquela Voz inaudível que ouvimos solitariamente, que embora real, só a nós diz sua verdade, e do mesmo modo, também nos ilude de sermos apenas a pessoa que ouve, e que responde por um determinado nome, uma idade e uma história neste mundo. Assim dizemos: “Eu exprimo uma personalidade”, e não: “Eu sou a personalidade”.

A hegemonia do que chamamos por Eu na condução da jornada é absoluta, porque justamente quase nada sabemos sobre o que, de fato, é o Eu, senão aquilo que, tal como referido ao inconsciente, emerge dele e se pronuncia nas entrelinhas das cenas da jornada. Pode-se supor que além desta ser a Natureza Humana, seja ela a garantia da realização de processos que não teriam como ser alcançados exclusivamente por nossa vontade e conhecimentos. Ao contrário disto, a maior parte de nossos dilemas existenciais, nossa trágica condição material, e todo sofrimento que faz parte desta experiência terrestre seria evitada, e com isso, tudo que surgiu para a superação destes limites desapareceria da Consciência.

Vale agora um exame sincero quanto a isto: sabemos o porquê de nascermos e crescermos num determinado meio, num grupo e numa família? Estamos cônscios do porquê alguns de nós nos enamoramos e seguimos construindo a vida com outra personalidade enquanto outros seguem a vida solitários, mesmo que nem os primeiros ou os segundos desejassem isto de fato? Por que tendo nascido num lugar acabamos vivendo noutro, ou justamente o contrário, desejamos mudar, mas a vida se encaminha para evitar isso? As mudanças correspondem ao Livre Arbítrio ou seriam fatalidades criadas por algum evento determinado por natureza? Se há a predeterminação, há Livre Arbítrio? Por que existem talentos inatos, e de onde surge o gênio?  Por que surgem rupturas nas relações, mesmo quando se deseja que não ocorram? Por que o sofrimento depois de decisões que pareciam tão boas? Podemos ser vítimas das circunstâncias ou surgem alterações que mesmo indesejadas, na verdade, posteriormente se mostram positivas? Por que somos incompreendidos por outras pessoas, seria pela falta de compaixão? Por que surge a irritação sem razão, as oscilações de humor em alguns e em outros a estabilidade emocional é natural? Será que sabemos quando os sentimentos nos educam, ou repetidas vezes surgem enquanto nos frustramos com as mesmas coisas?  De onde justificamos o direito de exigir ou negar aos outros sofrerem com transformações que simplesmente não se sabe como surgiram? Existe o acaso ou sorte, tornando uns afortunados e outros fracassados? É possível perder-se ou encontrar-se sem antes saber o sentido de sermos quem somos e estarmos onde estamos? É a vida que muda ou eu que mudo? Quanto será que interferimos nesse processo que nos trouxe até aqui para sermos assim, deste modo? E nossa família, quanto está presente no modo das coisas acontecerem ou das coisas simplesmente serem o que são? As coisas são assim como as vejo ou são assim porque outros desejam que sejam? Afinal: quem sou? é a questão, ou: o que estou sendo? seria mais adequado examinar? E mais, sei perceber tais coisas, isso me importa, por que? Quem são estas pessoas que dizem que me conhecem, que dizem me amar ou odiar? O que é o amor ou o ódio? Amo o que sou, e me identifico com o que dizem de mim? Por que? Para onde me encaminho tanto mais passa o tempo? Se nada sei sobre o porquê nasci, devo saber sobre o porquê morrerei um dia?

O diálogo interno encerra sempre algum grau de estranhamento quando somos realmente sinceros, sensação esta que se acentua muito aliás, quando se descobre o que não se está habituado a ver em Si Mesmo, sensação, que migra e tinge naturalmente tudo o que está a nossa volta, transformando nossos pressupostos em dúvidas sobre o que sustentava o sentido das coisas do mundo que experimentamos. Nem todos devem buscar-se tão fundo talvez, e o processo do vir a ser alguém esclarecido deve ocorrer sem que se perceba. E é assim com a imensa maioria das pessoas.

Esse quadro geral indica primeiro, que somos o mundo que observamos; segundo, que o processo do desenvolvimento é constitutivo e está entranhado indissoluvelmente na nossa forma de perceber nossas relações; e por fim, seja de forma consciente ou na espontaneidade, aquilo que nos impulsiona se mantém ativo desde o instante que nascemos.

Dito isto, e considerado com seriedade, é natural que muitas reconsiderações tendam a surgir no leitor, algumas podem até perturbar, sobretudo, se vistas pelo olhar materialista, este que explica nossas relações reduzindo as cenas, condições e eventos de forma geral às justificativas imediatas da existência física, tudo segundo o que nasce do contato social e cultural com um mundo notadamente instintivo e sensorial. Por outro lado, a linguagem que utilizaremos na narrativa da Estrutura Arquetípica pode ser frustrante também para o olhar exclusivamente místico, dada a ausência daquele tipo de nomenclatura típica das obras ocultistas. Ambas formas, material e transcendente podem, e deveriam até, no entanto, agregarem seus fundamentos sem o ranger dos dentes que costuma opor tais esferas como verdades e mentiras ou paraíso e inferno, ao invés disto, antes seria benévolo compreender que tratam a vida a partir de camadas distintas. E é isso o que discutiremos.

Este tipo de estranhamento, enfim, que pode surgir nos diferentes segmentos de leitores, tanto pela objetividade quase racionalista como pela subjetividade quase poética, demonstra apenas que a Estrutura Arquetípica é neutra. Por fim, a forma escolhida para a exposição dos fatos observados também pode gerar a sensação de um discurso moralista para alguns, quando na verdade, e paradoxalmente, a moral é justamente posta em questão, e necessariamente superada pelo imperativo Ético do Amor Absoluto que alimenta e sustenta tudo o que foi registrado. Enfim, é preciso liberdade plena para poder se conhecer e seguir além deste ímpeto a rotular tudo e todos, que só reduz drasticamente a forma da investigação a um modo de autoafirmação conveniente. Assim, seja entendida como ciência, arte, filosofia ou crença, tanto faz, o fato é que as nomenclaturas de cada setor acabam restringindo o sentido vivo e pleno do fluxo da vida num circuito fechado.

Ou seja, o empenho que este estudo do Si Mesmo requer é a imensa vontade de transpor o que consideramos saber, sejam os frutos de estudos teóricos, bem como muitas das experiências consideradas místicas, de forma que os conteúdos que surjam se tornem conhecimentos integrais ou integrados à fase de vida corrente, e este entendimento se concilie com as condições atuais que operam na personalidade, ou , em outras palavras, que esta investigação permita se ouvir sem concluir, mas apenas conhecer o Eu em sendo o caminho, esclarecendo-se  nas percepções de sua natureza. Aqui apresentaremos referências muito específicas, a partir das quais se desnudam causas objetivas, tornando visível o que na Estrutura Arquetípica se explica. Porém, como dissemos, tudo é processo criativo em aberto e indissociável do contexto que cada qual experimenta individualmente, portanto, o conteúdo só pode justificar-se na experiência direta, e no momento do contato com cada fenômeno Arquetípico, o mais é especulação.

Importa dizer, no sentido prático, que a Estrutura Arquetípica já foi apresentada a um número expressivo de especialistas, perfazendo por volta de 350 análises e consultas, realizadas com profissionais de Psicologia, Psicanálise e Psiquiatria, além de outros profissionais de diversas modalidades conhecidas genericamente por Terapias Holísticas – desde Barras de Access, Theta Healling, Constelação Familiar, Reiki, Yoga, Florais de Bach, Acupuntura. Somam-se a estes os Astrólogos e praticantes de diversos ramos das Numerologias, tais como o Eneagrama e Numerologia Cabalística, enfim, uma plêiade de personalidades dedicadas profissionalmente ou investigadores das abordagens sistêmicas e fenomenológicas. A estas pessoas em especial devo gratidão absoluta pela contribuição imensa, pela coragem, sinceridade, generosidade, estímulos e críticas, sem as quais nada teria sido confirmado sobre a aplicação do método, e sobre o que discutiremos adiante.

Nossa apresentação desenha o homem a partir de um olhar distinto, pontual, que se apoia basicamente na certeza de existir evidências rítmicas organizando a existência Humana, ou seja, confirma haver uma Natureza Humana plasmada nas ressonâncias e ou vibrações que englobam o ambiente no qual o homem se expressa. Semelhante ao modo como as Astrologias e Numerologias abordam os dados vinculados às pessoas – nome e data de nascimento - temos demonstrações que confirmam a formação de redes interligadas de personalidades segundo especificidades que desenvolvem qualidades em todos mutuamente, ainda que muitas destas qualidades ou capacidades sejam absolutamente ignoradas como ferramentas vitais para a elevação da Consciência. Na verdade, na maioria dos casos a percepção comum gera o oposto, e a qualidade referida é rejeitada. Estes dados registrados nas cenas de vida dos analisados podem ser entendidos como matrizes vibracionais ou Arquétipos. São estes que respondem pelo tipo de caminho da personalidade, por toda a sua forma de expressar-se no mundo, e a partir dos quais se observa a atividade inequívoca de uma organização Inteligente, Absoluta, que podemos claramente identificar como Providência ou Destino, que promove e específica modos destes aspectos presentes virem à tona em diferentes níveis, em todas as camadas da vida – material, emocional, mental e intuitiva. E por isso afirmamos tanto a existência desta esfera Absoluta da qual emana o Ser, como também o domínio exclusivo do Eu, ativando seus efeitos como manifestações Arquetípicas, presentes nas mais triviais e nas mais complexas cenas, porque estão na base motivacional das maneiras ou modos de ser, configurando de lá um caráter ou tipo de personalidade que se ajusta ao contexto universal da formação de uma só Humanidade. O coletivo, tanto quanto o individual, seguem uníssonos, indissociáveis, assim como não pode haver direita sem esquerda, sincronizados numa sinfonia de elementos complementares que se realiza antes na inspiração e na imaginação do compositor, para de lá vir a ser reproduzida em linhas escritas, e que lidas, soam na mente de cada músico que executa seu movimento num dado instante. Estes símbolos excedem sua aparente independência ou isolamento, e se unificam, mas só enquanto a sinfonia pode ser ouvida, enquanto soa uma essência, para assumir a totalidade ao ser conhecida integralmente pela plateia. E assim depois desaparecer da matéria, sendo novamente pura essência num sentimento, numa memória, individual e coletiva. Nada somos além disto, memórias, sonhos e reflexos do que flui segundo nossas possibilidades Humanas. Obras em processo criativo. 

O Temperamento, tal como para o músico, por isso, determina como o termo escrito será executado. A nota na partitura está cravada num tempo e intensidade, deve vibrar um timbre que explica o trecho de uma narrativa que está apenas imaginada. É no fazer soar que o aperfeiçoamento gera o ajuste, tal como na personalidade, na qual o temperamento refere-se à uma mistura de essências, notas, que associamos diretamente ao espectro que o Arquétipo irradia naturalmente. Para o leigo há pouca diferença entre o som de um violino e uma flauta transversal emitindo a mesma nota talvez, mas na composição essa distinção de instrumentos faz toda diferença. O mesmo vale para nuances que podem ser semelhantes e aproximam personalidades, mas jamais as iguala, porque não é possível reduzir a expressão de uma pessoa a ponto de ela ser igual a outra.

Estas manifestações dos Arquétipos, entendidas como essências ou substâncias puras, se imiscuem ao contexto da interação da pessoa com cada coisa que ela entra em contato. Estes fenômenos surgem como respostas, por assim dizer, que se enlaçam na linha cronológica pessoal e do grupo do qual a personalidade se origina e posteriormente ao que dá forma a partir de sua presença. De forma que as pulsões ou motivos essenciais ou substanciais sempre são decorrentes de questões diretas das demandas específicas de cada Estrutura Arquetípica no seu meio ambiente. A individualidade é tão absoluta quanto a universalidade, por isso, ainda que se possa tentar estabelecer tendências gerais, agrupando manifestações semelhantes dos Arquétipos, cada organização singular implica numa especificidade inédita e única, mesmo que partindo da mesma matriz. Portanto, mesmo vistos como causas independentes ou motivações essenciais, enfim, substâncias alquímicas capazes de modelar a personalidade, observamos sempre algo singular ou muitas variantes que podem exprimir uma só questão. Isso se observa dada a imensa possibilidade combinatória do conjunto Arquetípico que identificamos.

Essa especificidade indica que vigora o Princípio da Unicidade das Causas, que se transformam assumindo aspectos próprios como modulação de uma só matriz vibracional. Podemos exemplificar ilustrando o que ocorre com uma nota musical, o Si, que pode soar em oitavas que vão desde o inaudível, passando pelas faixas que o ouvido pode captar, e seguir ressoando para vibrações tão baixas que novamente desaparecem. Todas são o Si, mas cada oitava que ressoa esse tom altera completamente o efeito que ressoa em nós. É assim também com o que justifica as semelhanças e diferenças encontradas em cenas que possuem um mesmo Arquétipo, mas, manifestando-se tal como cada personalidade o experimenta no seu contexto único, seja no tempo ou espaço. Concluímos observando que, ainda que possamos reduzir tais aspectos a categorias gerais, apenas a título que compreender superficialmente algumas manifestações de Natureza Humana, estas sínteses só servem como sinais apontando para territórios imensos, que miramos por entre brumas, visto de nossa nau cruzando o mar da vida.

A análise da Estrutura Arquetípica, no sentido do que ocorre durante cada consulta, é sempre uma resposta ao que o Arquétipo suscita, surgindo como mote para uma observação especifica que dá significado à totalidade do que é desenhado no modelo matemático. O contato e narrativa se ajustam sempre representando o instante pleno da interação do analista e o analisado, e necessariamente, apenas se encaminha segundo a origem de uma causa para aquela abordagem se manifestar naquela narrativa original. Isto porque cada personalidade, como ilustramos, é um território pleno de relações que emergem em profusão, exigindo uma vivência durante a consulta, que une ressonâncias transformando aquele que observa o processo dessa configuração do Eu, num partícipe do caminho comumHumano – que se manifesta e consolida o sentido universal do encontro do analista com o analisado. A jornada modula na narrativa que acende necessariamente a níveis que cada qual deve compreender também em Si Mesmo. Essa interpenetração é inexorável, e altamente benéfica, porque se fundamenta numa interação Ética Suprema. É assim que cada aspecto se aperfeiçoa em cada interação, cooperando na linha cronológica para a Individuação daqueles que estão envolvidos na narrativa.

O esquema lógico da Estrutura Arquetípica, a parte numérica, corresponde apenas a um ponto de partida para a percepção dos fenômenos Arquetípicos. Por isso, sua representação gráfica é bem simples na verdade. Como dissemos, é semelhante a alguns modelos de mapas Astrológicos ou gráficos de Numerologia – há muitas variações que permitem alcançar os mesmos conteúdos. Por isso não daremos ênfase nesta formulação por hora, mas seguiremos estabelecendo correlações diretas com todas estas representações já conhecidas. O que nos importa nessa introdução é apenas gerar a certeza de que o vasto conhecimento chamado por Ciências Antigas, e suas respectivas formas de aceder à Alma, bem como as incursões ao inconsciente realizadas sobretudo por Jung, são contribuições conciliáveis, e isto nos permite aqui, chegarmos aos mesmos pontos com um desenho próprio.

O desenho inicial da Estrutura Arquetípica praticamente não diferia de modelos clássicos utilizados na Numerologia Pitagórica e vertentes desta linhagem, mas diante da aplicação em consulta estes esquemas iniciais foram sendo transformados, ganhando ajustes caso a caso. É natural que isso ocorra porque o sistema simbólico assume a plasticidade daquele que o opera, mesmo porque, há um vínculo direto com o caminho do investigador, no qual o método se instala na jornada também para cumprir com um fim específico.  Por isso, um conjunto de disposições acabou se definindo e assentando noções de Jung com muitos aspectos narrados pelas diversas teorias psicológicas sobre a personalidade, bem como, com abordagens das Numerologias e Astrologias – e assim também com o Tarô, o I Ching, Runas, a Geometria Sagrada, o Eneagrama e a Geomância. Porque todas estas abordagens culminam na expressão do Eu como um imperativo do caminho do homem. O desenho atual da Estrutura Arquetípica, agrega uma vasta simbologia, que articula harmoniosamente as premissas fundamentais presentes no Cristianismo Místico, na Antroposofia, na Kabbalah, no Taoísmo e no Ayurveda, transitando sua narrativa por toda a lógica da Alquimia que cada um destes sistemas místicos filosóficos consolidou.

Devemos citar também a contribuição que nasceu do inestimável contato com a tradição dos povos das florestas do Brasil, pela via Xamânica, que foi absolutamente fundamental para consolidar a universalidade da condição do homem neste plano terrestre. O desenvolvimento do conteúdo narrativo da Estrutura Arquetípica iniciou também por estudos na Antropologia, na USP, a partir de obras de Egon Schaden e Curt Nimuendaju, e outros igualmente importantes relativos às culturas da África Subsaariana, com Carlos Serrano e Dominique Galouis. Outra fonte de investigação e vivência imprescindível para configurar a Estrutura Arquetípica nasceu do ofício da Artes – que ocupou-me profissionalmente deste a adolescência, sendo o centro vivo do universo simbólico. Tal como muitos autores defendem, o homem é um ser essencialmente simbólico, daí, para qualquer um que queira investigar a esfera da intuição, ser crucial o contato com obras de arte, posto que nela o espírito de cada época está perpetuado. 

Podemos referir ainda quanto à vivência de campo, por assim dizer, que o contato com alguns Xamãs, cuja identidade prefiro omitir, e com Ailton Krenak, pensador, líder e ativista dos povos nativos das florestas, representa literalmente uma ponte entre mundos, visível e invisível. Estes encontros são altamente significativos e requerem o devido destaque, sem o quê, tanto a produção artística citada perderia seu viço, como tudo o que referimos quanto ao universo inefável simplesmente não existiria, e inúmeras luzes sobre os fundamentos desta narrativa se apagariam. Enfim, todos os aspectos aqui citados fazem parte desta jornada do autor, portanto, foram necessários pelo menos 40 anos de vivências, experimentações e incursões no inconsciente, para plasmar a Estrutura Arquetípica.  Com isso, fica claro que não se trata de um conteúdo apenas teórico, embora isto possa ser trabalhado também, mas sim do relato de uma jornada. Sendo assim, é importante compreender que a investigação que leva ao domínio deste método analítico coincide com o domínio sobre Si Mesmo, transformando-se no próprio caminho, porque um e outro, peregrino e rota, alvo e flecha são apenas partes indissociáveis de um mesmo fenômeno.

A exposição formal e completa dos fundamentos teóricos, num nível avançado, e as respectivas considerações que deles surgem, diretamente nascidas da aplicação do método analítico, ultrapassam largamente o propósito desta introdução, também porque são extensas em demasia para uma só obra. O mesmo vale para a explicação profunda dos diversos cálculos e respectivas articulações simbólicas que geram, lembrando que a especificidade da jornada de uma personalidade implica sempre em observar tudo quanto lhe cabe caso a caso.

Este conteúdo avançado, devido ao volume imenso de dados que agrega, será publicado posteriormente em outras obras, noutros formatos, para o público especialista e para aqueles que desejem tal aprofundamento.

Vale repetir, portanto, que este não é um campo de estudo inerte. Trata-se de desvelar-se para Si Mesmo num nível de consciência que não se está familiarizado, que exibe diretamente a condição da jornada a partir de outros pressupostos que regem a existência, dos quais emergem verdades e evidencias que contrariam a maior parte do que consideramos o porquê das relações que mantemos durante o caminho apenas material, instintivo e sensorial, coisa que nem sempre é agradável de se saber. O fato é que tornar o invisível conhecido requer maturidade. Entenda-se que maturidade significa colocar-se em paz num movimento para além do plano pessoal, e assentar essa paz interior numa existência que claramente deve se estender a uma vida universal e cósmica. Esta não é uma operação corriqueira, mesmo que represente uma benção ao final - se bem que todos estejamos simplesmente imersos nessa transformação em algum nível.

Neste instante da leitura estas reflexões podem parecer figuras de linguagem, abstrações, frases de efeito, exageros até, mas nada aqui é retórica, como já foi dito há milênios: não se entra duas vezes num mesmo rio, assim como não se sai dele o mesmo.

Por fim, tal como mencionamos, devido à natureza fluídica desta dimensão, a Arquetípica, que tentaremos adentrar simbolicamente, tendemos num primeiro momento a ser simplesmente ingênuos, e por isso mesmo, subestimar o que se revela, sobretudo, devido à simplicidade das evidências que a Consciência exibe. Isto não é um problema, pois estamos fortemente condicionados a dar importância e dar crédito às experiências consideradas extraordinárias, quando na verdade a vida é um milagre, e assim, nada supera o valor do autoconhecimento. O estágio seguinte é o estranhamento, que em verdade é quando o preconceito tenta defender a suposta estabilidade que a vida materialista nos educa a crer e aceitar como real. Esse fator camuflado, é natural, eclodindo na forma de reações inevitáveis de repúdio ao que anula nossas certezas com evidências diferentes das que conhecíamos. Tudo isso é necessário, portanto, devemos notar que este tipo de contato inicial, incluindo tais reações, são benéficas, porque se forem identificadas com clareza, podem ser observadas como formas condicionantes inseridas no nosso modo de ver.

A perseverança em observar a natureza do Si Mesmo é aquela vontade de se ver diferente na imagem do espelho na manhã de todos os dias, ciente de ser sempre o mesmo. A diferença desejável a ser vista não é da verdade da pele, mas a do modo como olhamos a luz que nos penetra, e que nos revela tal como somos.

Sê o que é, e tudo e nada já se encontrarão em seu justo lugar no Amor. 

14/3/2021

Campo Verde - MG