A ESTRUTURA
ARQUETÍPICA
Mahauros Andriole
A PERSONALIDADE E SUA JORNADA PELA CONSTELAÇÃO TERRESTRE
Estudos de caso e
reflexões sobre os fenômenos Arquetípicos, estabelecidos como energias Causais
da Existência, ativos na formação e expressão da personalidade, manifestando-se
nos eventos da vida do homem, criando as redes de relações interpessoais: as
constelações terrestres.
“Se
a Mente não saísse ou afluísse de si, não teria pensamentos; mas se não tivesse
pensamentos, não teria conhecimento de si, nem de nenhuma outra coisa e seria
incapaz de criar e de agir. Todavia, o afluxo dos pensamentos da Mente – que é
um contrarium da Mente, por meio do qual esta descobre a si mesma – faz
com que ela queira e deseje algo, de modo que dirige os pensamentos a algo,
isto é, ao centrum de uma egoidade, no qual a Mente opera com os
pensamentos, revelando-se e contemplando-se em ação através deles.”
Jacob Böehme
“O
Si-Mesmo não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba
tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do
mesmo modo que o Eu é o centro da consciência. ”
C.G.Jung
“O mundo e o eu, a luz e o fogo
distinguem-se nitidamente e, apesar disso, nunca se tornam definitivamente
alheios um ao outro, porque o fogo é a alma de toda a luz e todo fogo se veste
de luz. Assim, não há um único ato da alma que não adquira plena significação e
não venha a finalizar nesta dualidade: perfeito no seu sentido e perfeito para
os sentidos”
George Lukács
“Antes que a união com o
infinito possa ser considerada, é preciso que todo princípio da constituição
humana seja unido, de modo que o homem se torne uma consciência unida e não uma
série desconexa de consciências separadas e distintas. A inteligência das
células físicas que formam o corpo, o princípio das emoções e sentimentos, a
esfera da mente propriamente dita, precisam estar unidos e ligados por uma
percepção consciente da verdadeira natureza do eu que os emprega, o Gênio
superior.
Israel Regardie
APRESENTAÇÃO
A obra que o leitor tem em mãos
concentra-se numa apresentação geral do que chamaremos por Estrutura
Arquetípica, por isso, o objetivo central aqui é apenas promover a reflexão
inicial acerca desta dimensão da natureza Humana, a Arquetípica, assim como descrita de diferentes formas pelas
tradições ancestrais do Oriente e Ocidente. Tal como observaremos, esta
dimensão é absolutamente real e ativa em todos os setores da vida, embora possa
ser ignorada completamente ou mal compreendida durante a vida inteira.
Nesta
obra, portanto, por necessidade intrínseca deste enraizamento nas tradições
milenares, faremos uma exposição sucinta dos fundamentos básicos da chamada
Filosofia Perene, da qual a Estrutura Arquetípica é um resultado, de forma que
o leitor possa observar como eles justificam e se articulam no processo
analítico que foi aplicado em consultas. O leitor encontrará diversas
considerações importantes que surgiram durante a investigação, todas derivadas
diretamente da prática efetiva deste método analítico ao longo dos últimos dez
anos.
Foram
realizadas aproximadamente mil consultas com pessoas das mais diversas
formações, homens e mulheres e crianças de idades, nacionalidades e crenças
diversas, perfazendo um total de cinco a seis mil personalidades associadas
entre si pelas constelações familiares – personalidade central, seus pais,
irmãos e companheiros ou cônjuges, além de casos de análises de equipes de
trabalho, que discutiremos num capítulo dedicado a interações profissionais.
Assim, o que observamos abarca o que foi registrado no período de 2011 até
2021.
Os
fenômenos da formação de redes de relacionamento que se estabelecem
naturalmente, por vínculos afetivos e de consanguinidade, que chamaremos
simplesmente de Constelações, é
fulcral para entender todo o processo do vir a ser da personalidade em seu desenvolvimento, demonstrando que estamos
literalmente enlaçados numa imensurável rede de interdependência absolutamente
inteligente, misteriosamente organizada, cujo objetivo exclusivo e irredutível
é promover a elevação da Consciência Humana a um nível claramente superior de
convívio e integração no ambiente terrestre. Este objetivo é constitutivo e
estabelece uma condição da qual o homem jamais pode se distanciar, mesmo
porque, como observado, a sobrevivência neste mundo depende desta conquista.
Inúmeras teorias apontam para o mesmo fim, o que estamos trazendo neste estudo
é mais uma evidência desse processo.
As
reflexões iniciais reiteram o que já é sabido há milênios por todas as culturas
do mundo, e na atualidade são vitais para a constatação e compreensão do que
seja a dimensão Arquetípica como fonte de real transformação do Ser Humano em
seu caminho na Terra, pois, como demonstraremos, toda a existência que
consideramos realidade emana dela.
Os
estudos aqui presentes, embora possam parecer mais uma versão do que as obras
de literatura esotérica já descrevem, sobretudo as dedicadas às Astrologias e
Numerologias, em verdade se distanciam destas no sentido da narrativa que verte
da análise, além do que, trata-se de um método original. O que teremos,
portanto, são registros efetivos de observações muito pontuais sobre relatos
reais da vida comum. Deste modo, algumas observações a partir deste método
podem gerar implicações interpretativas diferentes do que as Astrologias e
Numerologias tradicionais costumam narrar. As diferenças de narrativa que
surgiram, no entanto, não divergem do sentido essencial ou anulam a validade do discurso das Astrologias e
Numerologias, mas agregam outro ponto de
vista a estas, ressignificando algumas noções correntes sobre o Livre Arbítrio e o que seja o Destino. Ao final, vemos que há mais
consonâncias do que discrepâncias, ainda que elas possam surgir dependendo do
plano que se estabelece a questão, mesmo porque, a Estrutura Arquetípica se
desenvolveu também tingida pelas narrativas destas duas abordagens
tradicionais.
O
fator que tende a gerar algum ruído, por assim dizer, surge justamente da
natureza desta camada a partir da qual se observam os fenômenos, a Arquetípica, porque a rigor, podemos
encontrar diferentes definições sobre o que seja o Arquétipo, e mais, sabe-se que nenhuma delas abarca o que seja tal
coisa, pois trata-se de algo que ultrapassa largamente os recursos discursivos
e se enraíza profundamente no imaginário, no sublime e inefável. Daí que a
ideia de observar o Arquétipo, já é
algo paradoxal, dada a imensurável volatilidade que o termo encerra. As noções
correntes em psicanálise e psicologia, assim como noutras linhas de pensamento,
utilizam o termo para vastas teorias, sempre justas e dando conta do que
almejam, e isto porque, como dissemos, o Arquétipo
talvez nem possa ser referido por palavra alguma, mas simplesmente sentido simbolicamente. A redução do que seja isto – o Arquétipo – é notadamente uma necessidade linguística, sem a qual
ele simplesmente evadiria para uma abstração imensurável. No nosso caso, esta
redução se baseia naquilo que, assim como o símbolo, exibe um conteúdo que
parte de uma pura abstração, porém, capaz de tornar-se concreta em seu poder de síntese, qual seja: o número.
O
número é a síntese plena que sem ser
algo real, no sentido de sua materialidade, é absoluto, no entanto, sendo o que
justifica a realidade primordial de
tudo o que conhecemos, pois, todas as coisas podem ser descritas e analisadas
em algum nível a partir das análises numéricas. Evidentemente, como ocorre na
prática das Numerologias, o número
representa muito mais que uma quantidade, ao contrário disto, ele se dilata ou
dissolve, muda de tensão e assume plasticidade para abarcar tênues nuances de
qualidades que excedem completamente o uso habitual das operações
quantitativas. O número, tal como o
poema, exibe um universo de relações suficientes para narrar a história do
homem em toda a sua magnitude. Deste mesmo modo, agora observando os Astros,
vemos que a mitologia celeste oferece exatamente as mesmas
possibilidades, desta vez pela poética dos deuses antigos que habitavam o mundo
dos homens nas culturas ancestrais. Lado a lado caminhavam, os homens e estas
potências, e o planeta Terra exalava aromas já há muito esquecidos. As
narrativas heroicas, as tramas, conquistas e derrotas colossais faziam parte do
dia destes povos que não se distinguiam das estrelas que luziam sobre suas
cabeças.
O que podemos dizer, grosso modo, é que a Estrutura Arquetípica considera a
narrativa da vida do homem a partir desta dimensão, na qual o Humano vivifica o
Eu, que é posto como o continente último de tudo quanto possamos conceber,
contendo todas as outras manifestações do homem/Cosmo em Si Mesmo, mas mantendo
nexo com todas as singularidades de cada nível de expressão seu universo
próprio. Em outras palavras, a dimensão Arquetípica,
tal como desenhada no ápice do grandioso esquema da Árvore da Vida, é a fonte original na qual está plasmada a
imagem do Humano, emanando de lá, destas alturas inefáveis o que essa natureza
reflete noutras três camadas da existência deste Ser, que tanto mais agrega
limites à esta natureza, mais se torna o que estamos habituados a chamar de
“homem”. O Humano, por isso é a energia viva habitando o homem, uma ideia em
sendo o ato criativo do Todo no Uno.
Ao
observarmos que a existência é este eterno fluxo pelas dimensões, vemos que o Arquétipo subsiste em todas, mas se
oculta nelas, embora sua natureza seja em verdade a Vida que se exprime nelas,
e que assume o grau mais concreto, por assim dizer, sentido e fim, na corporeidade nascendo da nossa carne.
Natural que a narrativa que surja deste ponto de vista, por mais alinhada que
esteja com as tradições das Astrologias e Numerologias, venha a se deitar
noutras paisagens, noutra lógica e anseios, porque surge a constatação de que a
dissonância que atribuímos aos desafios da jornada, nada mais são do que
camadas superadas pela Consciência criativa, ascendendo irredutivelmente por
iniciações sucessivas a cada nível que ressoa na Terra, no homem. Este é o
caminho e objetivo irrefutável do Eu/Alma, assim como descreveremos a partir
das observações realizadas em consulta.
A
Estrutura Arquetípica busca a sonhada conciliação com tais sentimentos
primordiais, iniciáticos para alguns,
tão presentes desde o antigo mundo e agora enamorado do contemporâneo, homens e
deuses, astros e números, Self e Alma, milagres e ciência, tudo que agora se
agrega e adquire vitalidade no tônus da prática analítica moderna, que apoia
seu discurso na experiência empírica, o desenho desse fulgor luminoso nas
consultas, enfim, trazer um lugar palpável para justificar as vicissitudes da
jornada do homem neste momento tão delicado pelo qual as sociedades atuais
atravessam. Com isso, é natural que a narrativa tenha que tingir-se do que é a
necessidade deste agora do homem em sua saga, porque tudo o que existe é sempre necessário, como veremos a partir do que
foi analisado com o método.
De
forma geral o que discutiremos serve em primeiro plano para ampliar recursos
investigativos a qualquer pessoa que almeja conhecer a Si Mesma, e observar
suas condições diante das demandas comuns do mundo que vivemos, sempre se
analisando na perspectiva de uma manifestação
da Consciência Humana no homem. A meta é trazer conteúdos essenciais à
tona, capazes de revelar as causas criativas das formas e tipos de manifestação presentes nos fenômenos que
experimentamos, estes que ilustram as cenas da vida – do nascimento à morte
física.
Dito
isso, fica claro que esta é uma obra em aberto,
porque nasce de sua aplicação e se dirige à vida
em seu fluxo vivo. Daí, a rigor, o
seu conteúdo exprimir literalmente e necessariamente um trecho deste fluxo imerso no grande
fluir das relações que agora o leitor está enlaçado, fluxo este que referimos à Mente.
Deste modo, é natural, e esperado, que muito mais do que as palavras aqui
escritas expliquem, há aquilo que deve surgir para além delas, imagens e irradiações puras identificadas
das interações contínuas deste
trecho, vinculadas diretamente ao fluxo para o qual converge a individualidade do leitor, tal como
alguém que mira sua face num rio e se vê em movimento com o mundo. Seja ele, o leitor, entendido, por isso, como
conteúdo vivo nas águas desta obra também, observado e percebido como causa e
efeito luminoso do mesmo universo que encerra a ambos: o Arquétipo.
Torna-se
evidente que imensas dificuldades se erguem para a transmissão do que
investigaremos, sobretudo discursivas, porque há o inefável que só pode ser
experimentado no silêncio, em Si Mesmo, no entanto, noutro sentido teremos como
guia os padrões de manifestação dos fenômenos, índices, formulações e sínteses, por assim dizer, que pretendem
demonstrar que o conhecimento da natureza Humana é visível e inexorável a
todos. De forma que aqui estamos apenas lançando estímulos para o desejo deste
contato, como num mergulho mais profundo nesse oceano que encobre nossa
riqueza. Ainda assim, podemos sugerir que muitas portas precisam ser identificadas, abertas, adentradas e
suas salas requerem ser habitadas, examinadas por cada um, até que sejam vistas
passagens para outras camadas da existência pessoal, até que elas sejam
integradas à via pela qual verte a Vida. Isto é o que se almeja com a Estrutura
Arquetípica.
A
análise da Estrutura Arquetípica é a representação
deste processo operacional, um chamado à atenção para esta observação, que é absolutamente ativa do Si Mesmo em nosso dia
a dia, a despeito do quanto isto pareça natural e esteja presente
intuitivamente em todos nós. O que vale é notar, é a causalidade a partir de aspectos triviais, mesmo que eles se
mostrem estranhos. É preciso integrar a diferença ao que estamos habitados a
chamar de “eu”. Daí afirmarmos que a imersão em Si Mesmo é a um só tempo tão
natural quanto estranha. Por isso, mais do que um estudo acadêmico, este é o chamado para um contato consigo mesmo, que
almejamos estimular, tendo em foco o ponto de apoio do método, e seu objeto
central – o Arquétipo - em atividade plena investigativa. O processo deve ser
rigoroso, a observação coesa, lógica, mas sem esterilizar deste contato aquele nuance que exala do aroma encantado,
típico de uma energia viva, do Eu Sou. Portanto, a leitura que guia a
observação, naturalmente irá, e deve expor, aspectos que permaneciam encobertos no inconsciente, mesmo que sussurrados às vezes do Si Mesmo como
reminiscências. A vida sussurrada do Eu soa naquela Voz inaudível que ouvimos solitariamente, que embora real, só a nós
diz sua verdade, e do mesmo modo, também nos ilude de sermos apenas a pessoa
que ouve, e que responde por um determinado nome, uma idade e uma história
neste mundo. Assim dizemos: “Eu exprimo uma personalidade”, e não: “Eu sou a
personalidade”.
A
hegemonia do que chamamos por Eu na condução da jornada é absoluta, porque
justamente quase nada sabemos sobre o que, de fato, é o Eu, senão aquilo que,
tal como referido ao inconsciente,
emerge dele e se pronuncia nas entrelinhas das cenas da jornada. Pode-se supor
que além desta ser a Natureza Humana,
seja ela a garantia da realização de processos que não teriam como ser
alcançados exclusivamente por nossa vontade e conhecimentos. Ao contrário
disto, a maior parte de nossos dilemas existenciais, nossa trágica condição material,
e todo sofrimento que faz parte desta experiência terrestre seria evitada, e
com isso, tudo que surgiu para a superação destes limites desapareceria da
Consciência.
Vale
agora um exame sincero quanto a isto: sabemos o porquê de nascermos e crescermos
num determinado meio, num grupo e numa família? Estamos cônscios do porquê
alguns de nós nos enamoramos e seguimos construindo a vida com outra
personalidade enquanto outros seguem a vida solitários, mesmo que nem os
primeiros ou os segundos desejassem isto de fato? Por que tendo nascido num
lugar acabamos vivendo noutro, ou justamente o contrário, desejamos mudar, mas
a vida se encaminha para evitar isso? As mudanças correspondem ao Livre
Arbítrio ou seriam fatalidades criadas por algum evento determinado por
natureza? Se há a predeterminação, há Livre Arbítrio? Por que existem talentos
inatos, e de onde surge o gênio? Por que
surgem rupturas nas relações, mesmo quando se deseja que não ocorram? Por que o
sofrimento depois de decisões que pareciam tão boas? Podemos ser vítimas das
circunstâncias ou surgem alterações que mesmo indesejadas, na verdade,
posteriormente se mostram positivas? Por que somos incompreendidos por outras
pessoas, seria pela falta de compaixão? Por que surge a irritação sem razão, as
oscilações de humor em alguns e em outros a estabilidade emocional é natural?
Será que sabemos quando os sentimentos nos educam, ou repetidas vezes surgem
enquanto nos frustramos com as mesmas coisas?
De onde justificamos o direito de exigir ou negar aos outros sofrerem
com transformações que simplesmente não se sabe como surgiram? Existe o acaso
ou sorte, tornando uns afortunados e outros fracassados? É possível perder-se
ou encontrar-se sem antes saber o sentido de sermos quem somos e estarmos onde
estamos? É a vida que muda ou eu que mudo? Quanto será que interferimos nesse
processo que nos trouxe até aqui para sermos assim, deste modo? E nossa
família, quanto está presente no modo das coisas acontecerem ou das coisas
simplesmente serem o que são? As coisas são assim como as vejo ou são assim
porque outros desejam que sejam? Afinal: quem
sou? é a questão, ou: o que estou
sendo? seria mais adequado examinar? E mais, sei perceber tais coisas, isso
me importa, por que? Quem são estas pessoas que dizem que me conhecem, que
dizem me amar ou odiar? O que é o amor ou o ódio? Amo o que sou, e me
identifico com o que dizem de mim? Por que? Para onde me encaminho tanto mais
passa o tempo? Se nada sei sobre o porquê nasci, devo saber sobre o porquê
morrerei um dia?
O
diálogo interno encerra sempre algum grau de estranhamento quando somos
realmente sinceros, sensação esta que se acentua muito aliás, quando se
descobre o que não se está habituado a ver em Si Mesmo, sensação, que migra e
tinge naturalmente tudo o que está a nossa volta, transformando nossos
pressupostos em dúvidas sobre o que sustentava o sentido das coisas do mundo
que experimentamos. Nem todos devem buscar-se tão fundo talvez, e o processo do
vir a ser alguém esclarecido deve ocorrer sem que se perceba. E é assim com a
imensa maioria das pessoas.
Esse
quadro geral indica primeiro, que somos o
mundo que observamos; segundo, que o processo do desenvolvimento é constitutivo e está entranhado
indissoluvelmente na nossa forma de perceber nossas relações; e por fim,
seja de forma consciente ou na espontaneidade, aquilo que nos impulsiona se mantém ativo desde o instante que nascemos.
Dito
isto, e considerado com seriedade, é natural que muitas reconsiderações tendam
a surgir no leitor, algumas podem até perturbar, sobretudo, se vistas pelo
olhar materialista, este que explica
nossas relações reduzindo as cenas, condições e eventos de forma geral às
justificativas imediatas da existência física, tudo segundo o que nasce do
contato social e cultural com um mundo notadamente instintivo e sensorial. Por outro lado, a linguagem que
utilizaremos na narrativa da Estrutura Arquetípica pode ser frustrante também
para o olhar exclusivamente místico,
dada a ausência daquele tipo de nomenclatura típica das obras ocultistas. Ambas formas, material e
transcendente podem, e deveriam até, no entanto, agregarem seus fundamentos sem
o ranger dos dentes que costuma opor tais esferas como verdades e mentiras ou
paraíso e inferno, ao invés disto, antes seria benévolo compreender que tratam
a vida a partir de camadas distintas. E é isso o que discutiremos.
Este
tipo de estranhamento, enfim, que pode surgir nos diferentes segmentos de
leitores, tanto pela objetividade quase racionalista como pela subjetividade
quase poética, demonstra apenas que a Estrutura Arquetípica é neutra. Por fim,
a forma escolhida para a exposição dos fatos observados também pode gerar a
sensação de um discurso moralista
para alguns, quando na verdade, e paradoxalmente, a moral é justamente posta em questão, e necessariamente superada
pelo imperativo Ético do Amor Absoluto
que alimenta e sustenta tudo o que foi registrado. Enfim, é preciso liberdade plena para poder se conhecer e
seguir além deste ímpeto a rotular tudo e todos, que só reduz drasticamente a
forma da investigação a um modo de autoafirmação conveniente. Assim, seja
entendida como ciência, arte, filosofia ou crença, tanto faz, o fato é que as
nomenclaturas de cada setor acabam restringindo o sentido vivo e pleno do fluxo
da vida num circuito fechado.
Ou
seja, o empenho que este estudo do Si Mesmo requer é a imensa vontade de
transpor o que consideramos saber,
sejam os frutos de estudos teóricos, bem como muitas das experiências
consideradas místicas, de forma que os conteúdos que surjam se tornem conhecimentos integrais ou integrados à fase de vida corrente, e este
entendimento se concilie com as condições atuais que operam na personalidade,
ou , em outras palavras, que esta investigação permita se ouvir sem concluir, mas apenas conhecer o Eu em sendo o caminho,
esclarecendo-se nas percepções de sua
natureza. Aqui apresentaremos referências muito específicas, a partir das quais
se desnudam causas objetivas,
tornando visível o que na Estrutura Arquetípica se explica. Porém, como
dissemos, tudo é processo criativo em aberto e indissociável do contexto que
cada qual experimenta individualmente, portanto, o conteúdo só pode justificar-se na experiência direta, e no momento
do contato com cada fenômeno Arquetípico, o mais é especulação.
Importa
dizer, no sentido prático, que a Estrutura Arquetípica já foi apresentada a um
número expressivo de especialistas, perfazendo por volta de 350 análises e
consultas, realizadas com profissionais de Psicologia, Psicanálise e
Psiquiatria, além de outros profissionais de diversas modalidades conhecidas
genericamente por Terapias Holísticas
– desde Barras de Access, Theta Healling,
Constelação Familiar, Reiki, Yoga, Florais de Bach, Acupuntura. Somam-se a
estes os Astrólogos e praticantes de diversos ramos das Numerologias, tais como
o Eneagrama e Numerologia Cabalística, enfim, uma plêiade de personalidades
dedicadas profissionalmente ou investigadores das abordagens sistêmicas e
fenomenológicas. A estas pessoas em especial devo gratidão absoluta pela
contribuição imensa, pela coragem, sinceridade, generosidade, estímulos e
críticas, sem as quais nada teria sido confirmado sobre a aplicação do método,
e sobre o que discutiremos adiante.
Nossa
apresentação desenha o homem a partir de um olhar distinto, pontual, que se
apoia basicamente na certeza de existir evidências rítmicas organizando a existência Humana, ou seja, confirma haver
uma Natureza Humana plasmada nas ressonâncias e ou vibrações que englobam o ambiente no qual o homem se
expressa. Semelhante ao modo como as Astrologias e Numerologias abordam os
dados vinculados às pessoas – nome e data de nascimento - temos demonstrações
que confirmam a formação de redes interligadas de personalidades segundo
especificidades que desenvolvem qualidades em todos mutuamente, ainda que muitas destas qualidades ou capacidades sejam
absolutamente ignoradas como ferramentas vitais para a elevação da Consciência.
Na verdade, na maioria dos casos a percepção comum gera o oposto, e a qualidade
referida é rejeitada. Estes dados registrados nas cenas de vida dos analisados
podem ser entendidos como matrizes
vibracionais ou Arquétipos. São
estes que respondem pelo tipo de caminho da personalidade, por toda a sua forma
de expressar-se no mundo, e a partir dos quais se observa a atividade
inequívoca de uma organização Inteligente,
Absoluta, que podemos claramente identificar como Providência ou Destino,
que promove e específica modos destes aspectos presentes virem à tona em
diferentes níveis, em todas as camadas da vida – material, emocional, mental e
intuitiva. E por isso afirmamos tanto a existência desta esfera Absoluta da qual emana o Ser, como
também o domínio exclusivo do Eu, ativando seus efeitos como manifestações
Arquetípicas, presentes nas mais triviais e nas mais complexas cenas, porque
estão na base motivacional das maneiras ou modos de ser, configurando de lá um caráter ou tipo de
personalidade que se ajusta ao contexto universal da formação de uma só
Humanidade. O coletivo, tanto quanto
o individual, seguem uníssonos, indissociáveis, assim como
não pode haver direita sem esquerda, sincronizados numa sinfonia de elementos
complementares que se realiza antes na inspiração e na imaginação do compositor,
para de lá vir a ser reproduzida em linhas escritas, e que lidas, soam na mente
de cada músico que executa seu movimento num dado instante. Estes símbolos
excedem sua aparente independência ou isolamento, e se unificam, mas só
enquanto a sinfonia pode ser ouvida, enquanto soa uma essência, para assumir a
totalidade ao ser conhecida integralmente pela plateia. E assim depois
desaparecer da matéria, sendo novamente pura essência num sentimento, numa
memória, individual e coletiva. Nada somos além disto, memórias, sonhos e
reflexos do que flui segundo nossas possibilidades Humanas. Obras em processo
criativo.
O Temperamento, tal como para o músico, por
isso, determina como o termo escrito será executado. A nota na partitura está
cravada num tempo e intensidade, deve vibrar um timbre que
explica o trecho de uma narrativa que está apenas imaginada. É no fazer soar
que o aperfeiçoamento gera o ajuste, tal como na personalidade,
na qual o temperamento refere-se à uma mistura de essências, notas, que
associamos diretamente ao espectro que o Arquétipo irradia naturalmente. Para o
leigo há pouca diferença entre o som de um violino e uma flauta transversal
emitindo a mesma nota talvez, mas na composição essa distinção de instrumentos
faz toda diferença. O mesmo vale para nuances que podem ser semelhantes e
aproximam personalidades, mas jamais as iguala, porque não é possível
reduzir a expressão de uma pessoa a ponto de ela ser igual a outra.
Estas
manifestações dos Arquétipos, entendidas como essências ou substâncias
puras, se imiscuem ao contexto da interação da pessoa com cada coisa que ela
entra em contato. Estes fenômenos surgem como respostas, por assim
dizer, que se enlaçam na linha cronológica pessoal e do grupo do qual a
personalidade se origina e posteriormente ao que dá forma a partir de sua presença.
De forma que as pulsões ou motivos essenciais ou substanciais
sempre são decorrentes de questões diretas das demandas específicas de cada
Estrutura Arquetípica no seu meio ambiente. A individualidade é tão absoluta
quanto a universalidade, por isso, ainda que se possa tentar estabelecer
tendências gerais, agrupando manifestações semelhantes dos Arquétipos, cada
organização singular implica numa especificidade inédita e única, mesmo que partindo
da mesma matriz. Portanto, mesmo vistos como causas independentes ou motivações essenciais, enfim,
substâncias alquímicas capazes de modelar a personalidade, observamos
sempre algo singular ou muitas variantes que podem exprimir uma só questão.
Isso se observa dada a imensa possibilidade combinatória do conjunto
Arquetípico que identificamos.
Essa
especificidade indica que vigora o Princípio da Unicidade das Causas,
que se transformam assumindo aspectos próprios como modulação de uma só
matriz vibracional. Podemos exemplificar ilustrando o que ocorre com uma nota
musical, o Si, que pode soar em oitavas que vão desde o inaudível, passando
pelas faixas que o ouvido pode captar, e seguir ressoando para vibrações tão
baixas que novamente desaparecem. Todas são o Si, mas cada oitava que ressoa
esse tom altera completamente o efeito que ressoa em nós. É assim também com o
que justifica as semelhanças e diferenças encontradas em cenas que possuem um
mesmo Arquétipo, mas, manifestando-se tal como cada personalidade o experimenta
no seu contexto único, seja no tempo ou espaço. Concluímos observando que,
ainda que possamos reduzir tais aspectos a categorias gerais, apenas a título
que compreender superficialmente algumas manifestações de Natureza Humana,
estas sínteses só servem como sinais apontando para territórios imensos,
que miramos por entre brumas, visto de nossa nau cruzando o mar da vida.
A
análise da Estrutura Arquetípica, no sentido do que ocorre durante cada
consulta, é sempre uma resposta ao que o Arquétipo suscita, surgindo
como mote para uma observação especifica que dá significado à totalidade do que
é desenhado no modelo matemático. O contato e narrativa se ajustam sempre
representando o instante pleno da interação do analista e o analisado, e necessariamente,
apenas se encaminha segundo a origem de uma causa para aquela abordagem se manifestar naquela
narrativa original. Isto porque
cada personalidade, como ilustramos, é um território pleno de relações
que emergem em profusão, exigindo uma vivência durante a consulta, que
une ressonâncias transformando aquele que observa o processo dessa configuração do Eu, num partícipe do
caminho comum – Humano – que se manifesta e consolida o sentido
universal do encontro do analista com o analisado. A jornada modula na
narrativa que acende necessariamente a níveis que cada qual deve compreender
também em Si Mesmo. Essa interpenetração é inexorável, e altamente benéfica,
porque se fundamenta numa interação Ética Suprema. É assim que cada aspecto se
aperfeiçoa em cada interação, cooperando na linha cronológica para a
Individuação daqueles que estão envolvidos na narrativa.
O
esquema lógico da Estrutura Arquetípica, a parte numérica, corresponde apenas a
um ponto de partida para a percepção dos fenômenos Arquetípicos. Por
isso, sua representação gráfica é bem simples na verdade. Como dissemos, é
semelhante a alguns modelos de mapas Astrológicos ou gráficos de Numerologia –
há muitas variações que permitem alcançar os mesmos conteúdos. Por isso não
daremos ênfase nesta formulação por hora, mas seguiremos estabelecendo
correlações diretas com todas estas representações já conhecidas. O que nos
importa nessa introdução é apenas gerar a certeza de que o vasto conhecimento
chamado por Ciências Antigas, e suas respectivas formas de aceder à Alma, bem
como as incursões ao inconsciente realizadas sobretudo por Jung, são contribuições
conciliáveis, e isto nos permite aqui, chegarmos aos mesmos pontos com um
desenho próprio.
O
desenho inicial da Estrutura Arquetípica praticamente não diferia de modelos
clássicos utilizados na Numerologia Pitagórica e vertentes desta linhagem, mas
diante da aplicação em consulta estes esquemas iniciais foram sendo
transformados, ganhando ajustes caso a caso. É natural que isso ocorra porque o
sistema simbólico assume a plasticidade daquele que o opera, mesmo porque,
há um vínculo direto com o caminho do investigador, no qual o método se instala
na jornada também para cumprir com um fim específico. Por isso, um conjunto de disposições acabou
se definindo e assentando noções de Jung com muitos aspectos narrados pelas
diversas teorias psicológicas sobre a personalidade, bem como, com abordagens das
Numerologias e Astrologias – e assim também com o Tarô, o I Ching, Runas, a
Geometria Sagrada, o Eneagrama e a Geomância. Porque todas estas abordagens
culminam na expressão do Eu como um imperativo do caminho do homem. O desenho
atual da Estrutura Arquetípica, agrega uma vasta simbologia, que articula
harmoniosamente as premissas fundamentais presentes no Cristianismo Místico, na
Antroposofia, na Kabbalah, no Taoísmo e no Ayurveda, transitando sua narrativa
por toda a lógica da Alquimia que cada um destes sistemas místicos filosóficos
consolidou.
Devemos
citar também a contribuição que nasceu do inestimável contato com a tradição
dos povos das florestas do Brasil, pela via Xamânica, que foi absolutamente
fundamental para consolidar a universalidade da condição do homem neste plano
terrestre. O desenvolvimento do conteúdo narrativo da Estrutura Arquetípica
iniciou também por estudos na Antropologia, na USP, a partir de obras de Egon
Schaden e Curt Nimuendaju, e outros igualmente importantes relativos às
culturas da África Subsaariana, com Carlos Serrano e Dominique Galouis. Outra
fonte de investigação e vivência imprescindível para configurar a Estrutura
Arquetípica nasceu do ofício da Artes – que ocupou-me profissionalmente deste a
adolescência, sendo o centro vivo do universo simbólico. Tal como muitos
autores defendem, o homem é um ser essencialmente simbólico, daí, para qualquer
um que queira investigar a esfera da intuição, ser crucial o contato com obras
de arte, posto que nela o espírito de cada época está perpetuado.
Podemos
referir ainda quanto à vivência de campo, por assim dizer, que o contato
com alguns Xamãs, cuja identidade prefiro omitir, e com Ailton Krenak,
pensador, líder e ativista dos povos nativos das florestas, representa
literalmente uma ponte entre mundos, visível e invisível. Estes encontros são
altamente significativos e requerem o devido destaque, sem o quê, tanto a
produção artística citada perderia seu viço, como tudo o que referimos quanto
ao universo inefável simplesmente não existiria, e inúmeras luzes sobre os fundamentos
desta narrativa se apagariam. Enfim, todos os aspectos aqui citados fazem parte
desta jornada do autor, portanto, foram necessários pelo menos 40 anos de
vivências, experimentações e incursões no inconsciente, para plasmar a
Estrutura Arquetípica. Com isso, fica
claro que não se trata de um conteúdo apenas teórico, embora isto possa ser
trabalhado também, mas sim do relato de uma jornada. Sendo assim, é importante
compreender que a investigação que leva ao domínio
deste método analítico coincide com o domínio sobre Si Mesmo, transformando-se
no próprio caminho, porque um e outro, peregrino e rota, alvo e flecha são
apenas partes indissociáveis de um mesmo fenômeno.
A
exposição formal e completa dos
fundamentos teóricos, num nível avançado, e as respectivas considerações que
deles surgem, diretamente nascidas da aplicação do método analítico,
ultrapassam largamente o propósito desta introdução, também porque são extensas
em demasia para uma só obra. O mesmo vale para a explicação profunda dos diversos
cálculos e respectivas articulações simbólicas que geram, lembrando que a
especificidade da jornada de uma personalidade implica sempre em observar tudo
quanto lhe cabe caso a caso.
Este
conteúdo avançado, devido ao volume imenso de dados que agrega, será publicado
posteriormente em outras obras, noutros formatos, para o público especialista e
para aqueles que desejem tal aprofundamento.
Vale
repetir, portanto, que este não é um campo de estudo inerte.
Trata-se de desvelar-se para Si Mesmo num nível de consciência que não se está
familiarizado, que exibe diretamente a condição da jornada a partir de outros
pressupostos que regem a existência, dos quais emergem verdades e evidencias
que contrariam a maior parte do que consideramos o porquê das relações que
mantemos durante o caminho apenas material, instintivo e sensorial, coisa
que nem sempre é agradável de se saber. O fato é que tornar o invisível
conhecido requer maturidade.
Entenda-se que maturidade significa colocar-se
em paz num movimento para além do plano pessoal, e assentar essa paz
interior numa existência que claramente deve se estender a uma vida universal e
cósmica. Esta não é uma operação corriqueira, mesmo que represente uma benção
ao final - se bem que todos estejamos simplesmente imersos nessa transformação
em algum nível.
Neste
instante da leitura estas reflexões podem parecer figuras de linguagem,
abstrações, frases de efeito, exageros até, mas nada aqui é retórica, como já
foi dito há milênios: não se entra duas
vezes num mesmo rio, assim como não se sai dele o mesmo.
Por
fim, tal como mencionamos, devido à natureza fluídica desta dimensão, a Arquetípica,
que tentaremos adentrar simbolicamente, tendemos num primeiro momento a ser simplesmente
ingênuos, e por isso mesmo, subestimar o que se revela, sobretudo, devido à
simplicidade das evidências que a Consciência exibe. Isto não é um problema,
pois estamos fortemente condicionados a dar importância e dar crédito às
experiências consideradas extraordinárias, quando na verdade a vida é um
milagre, e assim, nada supera o valor do autoconhecimento. O estágio
seguinte é o estranhamento, que em verdade é quando o preconceito
tenta defender a suposta estabilidade que a vida materialista nos educa a
crer e aceitar como real. Esse fator camuflado, é natural, eclodindo na forma
de reações inevitáveis de repúdio ao que anula nossas certezas com evidências
diferentes das que conhecíamos. Tudo isso é necessário, portanto, devemos notar
que este tipo de contato inicial, incluindo tais reações, são benéficas, porque
se forem identificadas com clareza, podem ser observadas como formas condicionantes inseridas no nosso
modo de ver.
A
perseverança em observar a natureza do Si Mesmo é aquela vontade de se ver
diferente na imagem do espelho na manhã de todos os dias, ciente de ser sempre
o mesmo. A diferença desejável a ser vista não é da verdade da pele, mas a do modo
como olhamos a luz que nos penetra, e que nos revela tal como somos.
Sê o que é, e tudo e nada já se encontrarão em seu justo lugar no Amor.
14/3/2021
Campo Verde - MG